A partir das notas de campo, Mentimeter ‘Perceções sobre as tecnologias digitais’ e Formulário ‘Como promover o bem-estar digital

Perceções sobre as tecnologias digitais

A partilha de experiências pessoais é valorizada

A oportunidade de partilhar experiências pessoais face ao mundo digital foi algo que empolgou os jovens participantes, motivando seu interesse no workshop

Adultos sabem menos sobre o digital, não compreendem e têm uma visão muito negativa da relação dos jovens com o digital

Os jovens partilham a perceção de que os adultos (especialmente os mais velhos) não estão bem informados acerca da desinformação/fake news online, uso da inteligência artificial (e.g. deepfakes) e práticas de segurança digital. A perceção de que os adultos não compreendem ou percebem de forma negativa a relação entre jovens e medias digitais também foi um tema recorrente

Redes sociais para comunicação, entretenimento e aprendizagem

Os participantes valorizam sobretudo a dimensão comunicativa e de socialização das plataformas digitais, mas também a possibilidade de entretenimento e aprendizagem.

O algoritmo e as plataformas de redes sociais têm muito poder

O tema dos algoritmos — e das infraestruturas digitais de forma geral — despertou muito interesse nos participantes, ainda que estes tivessem noções vagas/superficiais sobre o que estes são ou como impactam as suas vidas. A maioria dos participantes concordou que “Os algoritmos sabem quase tudo sobre mim”. A maioria dos participantes concordou que “As plataformas de redes sociais (TikTok, Instagram, Youtube…) são muito poderosas”.

O digital é um ‘vício’?

O tema do ‘vício’ digital por diversas vezes gerou controvérsia, com alguns participantes a afirmar que sabiam limitar e gerir o seu próprio uso —  equilibrando o tempo on/off — sem problemas e outros a relatar dificuldades em se desconectar dos dispositivos digitais. Embora as adições comportamentais ligadas ao meio digital ainda sejam contestadas cientificamente, os seus discursos reproduzem um imaginário cultural generalizado ao usarem expressões como ‘abstinência’, ‘desinstalar as aplicações mais ‘viciantes’’, ‘fazer desintoxicação digital’, ‘combater o vício’ ou ‘praticar detox digital’.

Temos alternativas sem os telemóveis, mas arriscamos perder comunicação/ interação

Num cenário hipotético sem telemóveis, a maioria dos participantes diz que encontraria outras atividades para fazer e que seria mais fácil focar naquilo “que mais importa”. No entanto, muitos assinalam que a desconexão impossibilita a comunicação, dificultando a relação com outras pessoas.

Nostalgia de um passado desconectado

Os jovens demonstram uma perceção idealizada sobre um passado “livre de tecnologias digitais”, mencionando, por vezes, suas próprias infâncias como momentos mais ‘desconectados’.

Estratégias sugeridas para promover o bem-estar digital

  1. Restringir o tempo de ecrã

Discursos que enfatizam a necessidade de diminuir o tempo de uso das tecnologias digitais, especialmente do telemóvel, sobressaem-se significativamente como a principal estratégia identificada pelos jovens para promover o seu bem-estar digital. Assim, incluem expressões como ‘controlar o uso’, ‘restringir o número de horas’, ‘tentar passar o mínimo de tempo possível’, ‘estabelecer pausas’, ‘limitar o tempo online’, ‘deixar o telemóvel distante quando estamos a realizar uma tarefa’, ‘planear e definir o tempo nos ecrãs’.

  1. Desenvolver o uso consciente

A segunda estratégia mais frequente identificada pelos jovens para a promoção do bem-estar digital remete para a relevância de desenvolver consciência sobre o que fazem online. O uso “responsável” é defendido várias vezes, tendo em conta três perspetivas: o impacto das nossas ações online nos outros, o impacto das tecnologias na nossa saúde mental e a necessidade de gerirmos conscientemente a nossa apresentação online.

  1. Investir em atividades offline

É destacada de modo complementar a importância de desenvolver atividades offline como um investimento para contrapor o uso considerado excessivo do telemóvel ou de outros dispositivos. Sugerem-se desenhar, ler, pintar, cozinhar, tocar um instrumento e especialmente praticar atividades físicas e desporto que para contrapor a tendência ao sedentarismo. O uso de tecnologias digitais é conectado frequentemente ao isolamento social e nesta perspetiva são sugeridas inúmeras vezes atividades de socialização como “priorizar interações reais”, “aumentar a socialização”, “sair com os amigos”, “passar mais tempo a criar laços pessoalmente”, “ter uma maior conexão interpessoal” e “dar valor ao convívio com amigos e família” para atingir um melhor bem-estar digital.

  1. Informar-se sobre os perigos online e tomar medidas de segurança

A questão da segurança online é também referida, embora com menos frequência, de modo generalista, sem especificar os riscos que podem ser encontrados ou as medidas a adotar. No entanto, são referidas algumas atitudes específicas a serem tomadas para melhorar a segurança e o bem-estar digital que incluem principalmente não falar ou aceitar pedidos de estranhos para seguir nas redes sociais. Outras incluem bloquear publicidade enganosa, não aceitar cookies, não abrir links ou sites duvidosos e pedir ajuda sempre que não se sentir confortável com uma situação online.

Sugestões para a escola promover o bem-estar digital das crianças e jovens

  1. Fornecer formação sobre bem-estar digital

Os estudantes sugerem mais “atividades”, “projetos”, “workshops”, “campanhas” e “aulas” de educação digital e identificam várias temáticas que deveriam ser abordadas: “cyberbullying” é a mais referida, além de outras como o “uso saudável do telemóvel”, “perigos da tecnologia”, “limite do tempo de ecrã”, “consciencializar as pessoas da dependência”, “uso consciente da tecnologia”, “segurança online”, “aspetos positivos e negativos das redes sociais” e “ensinar a gerir o tempo online”. A ideia que predomina é que a escola deveria ter políticas de uso “equilibrado”, “saudável” e “responsável” das tecnologias

  1. Restringir o uso de telemóveis e o acesso a conteúdos e a aplicativos

São propostas medidas restritivas, por vezes referidas de modo vago, como “limitar”, “restringir”, “controlar” ou “determinar tempo de uso”, outras identificando claramente o tipo de restrição sugerido. A mais comum é proibir o uso de telemóveis em sala de aula, a não ser para fins educativos com autorização do professor. São também frequentes sugestões para proibir o uso de telemóveis até o 2º ciclo de escolaridade, enquanto poucos defendem a proibição até o 9º ano e em raros casos a proibição total no ambiente escolar. Propostas de interdição de uso de telemóveis nos intervalos também são exceção, mas há diversas propostas de que sejam banidos “em um dos intervalos”, “em intervalos regulares” ou “em um dia na semana”. As propostas de limite de acesso a conteúdos e aplicativos no ambiente escolar incluem proibir gravar TikToks, usar redes sociais, além de “sites e conteúdos específicos” não identificados.

  1. Promover atividades offline

As escolas devem promover atividades nos intervalos das aulas que motivem os alunos para se afastarem das tecnologias digitais e se socializarem mais. Predominam sugestões para que sejam desenvolvidos torneios (de jogos, xadrez, cartas etc) no ambiente escolar. Alguns solicitam também mesas de pingue-pongue e matraquilhos, enquanto outros sugerem jogos de mesa nas bibliotecas e espaços comuns. São também frequentes as referências a “incentivar atividades ao ar livre”, como jogos interativos e brincadeiras.

  1. Digital com ferramenta pedagógica?

As opiniões dividem-se em relação ao seu potencial benéfico ou prejudicial ao bem-estar digital. As perspetivas positivas, em número ligeiramente superior em relação às negativas, defendem a utilização do digital como ferramenta de educação para mostrar que as tecnologias podem ser usadas de forma positiva. São sugeridos “fazer trabalhos em grupo com os telemóveis”, atividades para “colaborar com os colegas online e usar aplicativos para estudo” e promover “jogos digitais”. Por outro lado, um conjunto de respostas parece sugerir que há um excesso de uso das tecnologias digitais no contexto do ensino. As propostas de “não aplicar em demasia as tecnologias nas aprendizagens” e “desenvolver projetos mais práticos que não requerem acesso ao mundo digital” resumem esta tendência.

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