Depois de organizada toda a logística de autorizações e transporte, lá se dirigiu para Norte, o grupo de professores da Comunidade. Entre partilha de algumas vivências profissionais e pessoais, era evidente a curiosidade que todos demostravam em lá chegar e ver com os próprios olhos a forma de trabalhar daquela Escola, já um pouco conhecida por todos, por se ouvir falar na comunidade escolar ou nas várias noticias que surgem na comunicação social.

Chegada a equipa à Escola da Ponte, que fica situada na localidade de São Tomé de Negrelos, concelho de Santo Tirso, distrito do Porto, entramos finalmente no espaço que tanto ansiávamos conhecer.

Mal demos os primeiros passos no exterior do estabelecimento, deparámo-nos com duas crianças a desempenhar algumas tarefas relacionadas com a responsabilidade da escola. Estavam de luvas e com um saco do lixo na mão a supervisionar o estado do recreio e a recolher alguns resíduos que escassamente lá foram deixados. Foi com um enorme sorriso e simpatia que cumprimentaram as visitas recém-chegadas à escola.

Já no interior do edifício, fomos cordialmente recebidos pela diretora da escola, pela coordenadora pedagógica e por um grupo de quatro alunos. Os professores visitantes foram divididos em dois grupos, sendo cada um deles acompanhado por dois alunos, que fizeram a visita guiada à escola e que com naturalidade e conhecimento de causa, responderam às questões que os visitantes lhes foram colocando.

Desta conversa que tivemos com os alunos, ficamos a conhecer o modo de funcionamento deste estabelecimento, a forma como trabalham, a visão dos mesmos em relação ao ensino e aprendizagem, as regras a cumprir, que desde cedo são interiorizadas pelos alunos, entre outros aspetos.

Desta conversa que tivemos com os alunos, tomamos conhecimento do seguinte:

• O papel que os alunos desempenham, como guias, é uma das tarefas de responsabilidade do aluno;
• Relativamente aos níveis de aprendizagem, a Escola da Ponte é organizada da seguinte forma: Pré-escolar; Primeira Vez, que corresponde ao 1.º ano de escolaridade, onde se desenvolve sobretudo a competência da leitura e escrita; Iniciação, que corresponde ao 2.º, 3.º e 4.º anos; Consolidação, que corresponde ao 5.º e 6.º anos e Aprofundamento, que corresponde ao 7.º, 8.º e 9.º anos;
• São os alunos que, a partir da Iniciação, escolhem quinzenalmente as temáticas a trabalhar em cada disciplina, que são registadas por si numa planificação quinzenal, sempre em articulação com os professores. Desenvolvem e executam o plano do dia. O Professor Tutor acompanha o desempenho dos alunos durante a quinzena. Dentro das salas de aula trabalham em pequenos grupos, onde estão sempre presentes os professores para os ajudar individualmente;
• São os alunos que, no final de cada quinzena, pedem a avaliação dos conteúdos trabalhados (Já sei), que poderá ser feita através da apresentação de um trabalho, de questões orais, ou outras formas, negociadas entre as partes;
• A Assembleia de Escola é um órgão que faz parte da estrutura organizativa da Escola. É eleito o presidente e os membros da mesa da Assembleia de Escola no início do ano letivo, através do voto de todos os alunos, após uma pequena campanha eleitoral. As reuniões de Assembleia de Escola são feitas com regularidade, onde participam todos os alunos da escola. Nela, são discutidos os problemas que surgem na escola e as formas de os resolver; as atividades realizadas e a realizar; a aprovação dos direitos e deveres dos alunos; apresentação de trabalhos, entre outros assuntos. É elaborada um ata por cada reunião realizada, que depois de lida e aprovada pelos alunos presentes, é exposta no Mural da Assembleia;

• Existe também uma “Comissão de Ajuda”, que está ao dispor dos alunos, no sentido de os ajudar a resolver problemas que tenham e que individualmente não o consigam fazer;
• Os Direitos e Deveres são elaborados pelos alunos, no início de cada ano letivo e levados à discussão na Assembleia de Escola;
• Aos alunos da Escola são atribuídas tarefas de responsabilidade: uma equipa é responsável por receber e orientar as pessoas que vistam a escola; outra equipa é responsável por “Livros e Companhia”, entre outras;
• A Escola participa no Programa Eco – Escolas, onde os alunos têm um papel ativo e orientador;
• Os alunos expõem, na escola, os trabalhos que realizam nas diversas disciplinas. Foi-nos dito que, em alguns dos trabalhos, os alunos utilizaram algumas ferramentais digitais como foi o caso do Canva, para elaborar os cartazes sobre o 25 de abril;

• Os alunos dispõem de uma campainha na sala de aula para que, sempre que necessário, seja chamada uma funcionária, evitando assim uma maior circulação dos alunos pelos corredores;
• Foi-nos também mostrado um trabalho elaborado pelos alunos (panfleto) sobre o programa de uma visita de estudo a Coimbra. Nele consta uma pequena descrição sobre o que irão visitar e os horários a cumprir. Após feita a pesquisa é que se concretiza a visita de estudo planificada.

• Os alunos dispõem de um horário com as áreas disciplinares a trabalhar. Não há campainha. São os próprios alunos que cumprem autonomamente os horários das aulas e respetivo intervalo;

Em suma, os alunos que nos acompanharam durante a visita gostam desta escola e da forma como aprendem, pois como nos referiram, os professores promovem a autonomia dos alunos, o ensino é mais individualizado e direcionado para os seus interesses.

Na segunda parte desta visita, tivemos a oportunidade de reunir com a diretora da escola, com a coordenadora pedagógica e com alguns professores que lá lecionam. Após colocarmos as nossas questões, que prontamente foram respondidas pelos presentes, podemos concluir o seguinte:

• O silêncio que é constante nos corredores e nas salas de aula impressionou todos os visitantes e essa foi a primeira questão a ser colocada. Como é que se consegue? A resposta dada foi direcionada para os seguintes factos: a liberdade que os alunos têm de escolher as suas próprias aprendizagens e o compromisso que os mesmos têm em cumprir o que se propõem a fazer; o facto de todos os alunos estarem envolvidos na vida escolar e o facto da organização escolar girar em torno do aluno;
• Os professores trabalham em equipa e para os alunos;
• A Escola tem contrato de autonomia e por isso consegue manter parte do corpo docente estável, que é fundamental para dar continuidade a projeto e integrar professores que sejam colocados pela primeira vez;
• A Direção está sempre presente nas reuniões da Assembleia de Escola;
• Relativamente ao grupo integrado na Primeira Vez, a aprendizagem dos alunos centra-se, como já foi referido, na aquisição da leitura e escrita, pois é o alicerce para a fase seguinte. Estes participam em projetos, tarefas individuais e coletivas, e ganham as competências necessárias para passar à Iniciação. Nessa fase seguinte, há um professor responsável por cada disciplina e os alunos passam a trabalhar com planificações quinzenais, em que têm a liberdade de escolher o que querem trabalhar em cada disciplina, sempre orientados por um professor tutor e com os professores presentes na sala de aula para os orientar e ajudar a aprender. Os alunos que estão abrangidos pelo decreto lei 54/2018 têm, se assim for necessário, terapias para os ajudar e apoio por parte do professor da educação especial. Estes são sempre integrados num grupo de trabalho;
• O representante do órgão máximo da escola é um Encarregado de Educação. Para além de envolver os alunos na vida da escola, os Encarregados de Educação estão sempre presentes e são voz ativa nas decisões tomadas na escola.
• As assistentes operacionais que ingressam de novo têm de se envolver na forma como tudo está estruturado nesta escola.

Em suma, a Escola da Ponte organiza-se e gere-se em torno do aluno, e para tal é fundamental que os professores trabalhem em equipa e em constante articulação uns com os outros.

A Comunidade agradece aos professores, alunos e funcionários que tão bem nos receberam.

Saímos de coração cheio e com ideias novas para aplicar nas nossas escolas e nas nossas salas de aula.

Vera Manco